Um passeio inesquecível: pernoitando em Maya Bay

E então chegamos ao grande passeio da viagem até agora: o pernoite em Maya Bay, aquele paraíso de “A Praia” (sim, sabemos que o filme é constrangedor, o pior de Danny Boyle). Resolvemos passar a noite lá porque ir durante o dia é compartilhar do caos e da farofa. Desta vez, tudo valeu a pena, ainda que com um certo – e justificável – temor inicial. Senão, vejamos:

A viagem começa às 8h30, em uma espécie de carro/comboio, bastante parecido ao táxi compartilhado de Ko Phangan, que segue por uma hora até o porto de Krabi. De lá, às 9h30 pegamos um ferryboat e, depois, mais duas horas de viagem. Quase ao meio-dia chegamos em Koh Phi Phi: demos uma volta na ilha, conhecemos as praias, demos um mergulho, vimos a destruição provocada pelo tsunami e escolhemos um restaurante para almoçar. Tivemos a sorte de escolher um ótimo, Papaya Restaurant, cuja comida veio muito bem servida e saborosa (além de barata).

Só iríamos deixar o porto às 15h, então pudemos fazer tudo com bastante calma. No horário marcado, erramos o local de embarque, mas como estávamos adiantados conseguimos subir sem maiores problemas.

Quando avistamos o barco com a inscrição “Sleepaboard” já completamente lotado, uma grande apreensão se fez presente. A palavra “roubada” se instalou como um mantra em nossas mentes. Havíamos lido que pernoitariam umas 20 pessoas, que só havia um banheiro, que a viagem era muito disputada etc. Numa olhada rápida, contamos pelo menos 40… Imediatamente o arrependimento começou a se instalar. Até que o nosso simpático – e fanfarrão – guia nos deu as boas-vindas e esclareceu que 18 daqueles que lá se encontravam só iriam até metade do passeio, e que portanto não dormiriam na embarcação, o que significava mais espaço e menos gente para dividir as instalações e o banheiro.

Nosso humor começou a melhorar e em pouco mais de 30 minutos chegamos à primeira parada, na qual nos foram dadas duas opções: mergulhar de snorkel ou andar de caiaque. Como já havíamos mergulhado duas vezes, e não pudemos remar em James Bond Island, escolhemos a segunda opção. E fizemos bastante bem, pois fomos até um dos lugares mais bonitos que vimos durante toda a viagem: um enorme paredão rochoso que represava o fim do mar ao mesmo tempo em que criava duas pequenas ilhotas. Lá pudemos ver um macaco, completamente indiferente à nossa presença, saindo da água (!) e escalando a rocha em busca de pequenos caranguejos para fazer uma boquinha.

Retornamos ao barco na hora certa, pois a maré começava a baixar – o que não combinou muito bem com nossos remos – e ainda tivemos tempo para um mergulho rápido de snorkel, quando vimos uma quantidade absurda de peixes, que suplantou e muito nossos dois primeiros mergulhos.

Dali seguimos até Maya Bay, onde chegamos poucos minutos antes do pôr-do-sol. Pouco tempo depois foi servido o primeiro buffet, com arroz, frango ao curry e legumes fritos, comida boa e sem miséria. Após o jantar, chega o momento do “drink grátis”: você escolhe os ingredientes – Coca ou Sprite, rum ou vodka, além de Red Bull tailandês, se quiser – e tudo é misturado dentro de um pequeno balde com gelo (sim, num BALDE).

Se aceitar esse “baldinho”, por mais tímido e antissocial que você seja, em pouco tempo estará conversando com dois holandeses, uma inglesa animada e um casal francês como se eles fossem teus amigos de infância. Se chegar ao fim do balde, é possível que a noite já tenha entrado para o rol das “mais incríveis” da sua vida. Apenas o nosso barco tem/tinha permissão para pernoite em Maya Bay, uma ilha/reserva sem restaurantes ou construções além de uns banheiros xexelentos. Ou seja, a praia era toda nossa.

Era impossível não pensar, durante as idas ao banheiro, nas plácidas noites em Crystal Lake, ao redor da fogueira, com nosso amigo Jason Voorhees, ou naquelas placas de desenho animado da Hanna-Barbera escritas em letras garrafais: “Enter at your own risk!”. Pode parecer brincadeira, mas não era. Havia uma tensão. Real.

Horas depois, quando já havia rolado um churrasquinho de frango e uma (sempre) dispensável rodinha de violão enquanto os baldes seguiam sendo consumidos, chegava a hora de voltar para o barco. Era o surreal momento de mergulharmos com os plânctons. Então, todos bêbados, colocamos nossos coletes salva-vidas, máscaras e snorkels e saltamos para a escuridão. Foi um momento indescritível. Estávamos lá, às duas horas da manhã, maravilhados enquanto nadávamos com os plânctons num mar só “nosso”.

Depois, rolou aquele balde – ôpa – de água doce – ahh – e fomos dormir. Ou melhor, deitar, pois a festa continuava na cozinha. As pessoas foram se instalando nos sacos de dormir e colchonetes, com espaço suficiente para todos, uma vez que ainda havia o segundo andar do barco e um “terraço”. A brisa marítima era refrescante e relaxante ao mesmo tempo.

Até que… desabou um temporal. Todos tiveram que se espremer em um terço do espaço disponível, as janelas foram todas fechadas e o barco começou a balançar com mais intensidade. Em vez de espaço e ventinho gostoso, vieram aperto e calor. O bom é que, pelo menos, isto foi por pouco tempo: a chuva parou e a tripulação se distribuiu.

Às 6h da manhã, apenas algumas horas depois, fomos todos “acordados” para presenciar o nascer do sol. Um rápido café da manhã, uma última ida à praia para a despedida, mais um retorno ao barco para um último mergulho com snorkel e, às 9h, zarpamos para o porto de Ko Phi Phi.

De lá, mais duas horas até o porto de Krabi e, então, mais uma hora de ônibus até Ao Nang. E, sem medo de errar, podemos afirmar que valeu cada segundo.

(Aqui vai um “Muito obrigado” à Raquel, que insistiu e conseguiu reservar em minutos um passeio que a maioria das pessoas leva/levou meses para conseguir. Minha retribuição foi puxar papo com um holandês, que, muito simpático e receptivo, nos tirou do isolamento inicial e impediu que ficássemos marcados como um casal egoísta, antissocial, autossuficiente. Não sei precisar qual foi exatamente a razão que me levou a conversar logo com ele, mas acabou sendo de fundamental importância não apenas para o desenrolar do passeio mas, principalmente, como reflexão posterior.

Antes de irmos embora, ele protagonizou uma bonita e tocante cena, que emocionou todos aqueles que a presenciaram. Mais de uma vez ele disse para nós – a respeito de nossa viagem e de nosso “ano sabático”: “You have a good life”, o que nos fez pensar bastante mais tarde. Por essa razão, decidimos compartilhar o ocorrido aqui.

Quatro meses atrás, na Holanda, enquanto esperava sua namorada, recebeu um telefonema do celular dela. Ele atendeu, certo de que era ela no outro lado da linha dizendo que estava chegando ou algo do tipo, quando recebeu a informação, passada por uma voz desconhecida, de que ela havia caído de scooter e batido a cabeça. Estavam ligando para ele porque seu número constava em caso de emergência. Ela não resistira à queda.

Não sabemos se ele já tinha comprado a passagem naquela época, mas provavelmente ela estaria lá em Maya Bay com ele – e conosco. Ainda assim, ele parecia estar aproveitando a oportunidade de estar ali e sendo super solícito com completos desconhecidos. A frase, “You have a good life”, repetida algumas vezes, mas sempre com um sorriso no rosto, ganhou um novo significado para nós. Ele fez com que a gente parasse para pensar na nossa aventura de scooter, na nossa viagem, nas nossas vidas.

Sim, o clichê é real, e muito duro: a vida é uma só, e pode terminar num segundo.

Ele fez sua homenagem a ela na areia da praia naquela manhã e nós fazemos aqui.

Our condolences, Noud. We felt very sorry for your loss. May she rest in peace).


Maya Bay Sleep Aboard
Price: 3.000 THB (R$ 300) por pessoa
Site: http://www.mayabaytours.com

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